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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Metade dos jornalistas assassinados em 2015 trabalhavam no rádio

Dados divulgados pelo Relatório ABERT sobre Liberdade de Imprensa – 2015, lançado nesta segunda-feira (22), coloca em foco a realidade vivida pelos profissionais brasileiros no exercício do jornalismo.Segundo o documento, “o levantamento anual feito pela Press Emblem Campaign (uma ONG independente criada por jornalistas, com base na Suíça) mostra que o Brasil é hoje o quinto local mais arriscado do mundo para os profissionais de imprensa”. O país aparece em pior situação do que nações como Iêmen e Sudão do Sul, que estão em guerra – a Síria, local mais perigoso para a atividade, registrou 13 mortes em 2015; no Brasil, foram oito.
Um dos casos mais chocantes e emblemáticos dessa situação foi o assassinato do radialista Gleydson Carvalho. Ele estava no ar, apresentando seu programa na rádio onde trabalhava, em Camocim (CE), quando foi morto a tiros por dois homens que invadiram o local. O profissional era conhecido por denunciar irregularidades cometidas por políticos da região.
O crime, que aconteceu em agosto, retrata bem o perfil das vítimas fatais no jornalismo em 2015. Todos os oito mortos eram homens. Seis deles foram executados no Nordeste. E a maioria, assassinada a tiros, estava envolvida com a cobertura da política local. Quatro eram radialistas e outros quatro, blogueiros.
Para o presidente da Associação das Emissoras de Radiodifusão do Paraná (Aerp), Alexandre Barros, o próprio perfil do meio rádio acaba se tornando um agravante em meio a essa violência. “Justamente por seu imediatismo, linguagem direta e proximidade junto às comunidades, o rádio desenvolve uma atuação social muito mais forte que outros veículos. Isso faz com que a repercussão de seus conteúdos tenha um grande peso na opinião pública”, avalia Barros.
De fato, a praticidade e a informalidade do rádio são características apontadas por especialistas como elementos fundamentais para o compromisso social que o meio desenvolve. De acordo com o jornalista e professor, Valdir Cruz, o rádio, por ser um veículo barato e ágil, está sempre próximo da população e garante uma função social natural. “Entre todos os meios de comunicação, incluindo a internet no celular, o rádio é o mais prático, já que exige apenas um sentido para ser captado, a audição. Além disso, a agilidade na transmissão dos conteúdos complementa esse potencial de utilidade social; com isso, ele se torna fundamental para o fortalecimento da cidadania, oferecendo e disseminando informação, cultura e educação”, explica.
Impunidade
Diante do cenário vivenciado dia a dia pelos profissionais e retratado no relatório da Abert, o presidente da associação nacional, Daniel Slaviero, acredita que a união da sociedade em defesa da liberdade de expressão precisa ser reforçada, assim como o combate à impunidade.Em 2016, segundo ele, a situação é ainda mais preocupante por ser ano de eleições municipais.
“Todos os casos (de morte) que ocorreram em 2015 estavam relacionados à investigação em casos de corrupção, seja envolvendo agentes públicos ou empresários. Então, como estamos em um ano de eleições municipais e os veículos de comunicação fazem um papel investigativo muito forte, é uma preocupação para a Abert e para as outras entidades que acompanham o trabalho jornalístico que esses números não sejam agravados. E para que isso não ocorra, precisa haver uma ampla investigação, apuração e punição rigorosa nesses casos para que outras pessoas que queiram ter esse tipo de atitude contra profissionais da imprensa sejam inibidas”.
Segundo o Relatório ABERT sobre Liberdade de Imprensa – 2015, além das oito mortes, foram registradas 64 agressões. Esses casos, somados a ameaças, intimidações, vandalismo e ataques, totalizam 116 ocorrências de violações à liberdade de expressão. O documento compila os casos que aconteceram durante todo o ano de 2015, de janeiro a dezembro.

FONTE: ABERT | AERP